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Após uma guerra, voltar a casa pode ser a parte mais difícil…

Após uma guerra, voltar a casa pode ser a parte mais difícil…

Ian Long, um jovem de 28 anos de idade que prestou serviço militar no Afeganistão, um ex “Marine” do exército dos EUA, foi o autor dos disparos que provocaram a morte a 12 pessoas no passado dia 07 de novembro, num bar no sul da Califórnia. Segundo fontes oficiais, o fuzileiro naval estaria a agir de forma “irada e irracional”. Ian Long tinha uma dura mensagem na ponta da arma “Na guerra ensinam a matar, não ensinam é a continuar a viver!”. Muitos militares americanos que regressaram do Afeganistão e Iraque foram diagnosticados com Perturbação de Stress Pós-Traumático – PSPT, uma síndrome psiquiátrica comum após a pessoa passar por uma experiência limite como a guerra, catástrofes naturais, acidentes graves, testemunha de morte, violação, abuso sexual…, mas poucos veteranos procuram ajuda por medo do estigma social, culpa ou vergonha. Regressam com vida, mas muitos trazem dano emocional severo e morta a alma. Por terras lusas, os efeitos diretos e indiretos da guerra colonial ou do ultramar ainda se fazem sentir:

” A guerra em Angola, Guiné e Moçambique (1961 a 1974) envolveu 800.000 militares portugueses (30% oriundos dos territórios ultramarinos) dos quais 8.831 foram mortos (8.290 Exército; 346 Força Aérea; 195 Marinha) e cerca de 30.000 ficaram feridos (15.507 mutilados com deficiência permanente). O esforço da guerra representava anualmente entre 30-40% do Orçamento do Estado.” (Albuquerque, A., et al., 2003. Avaliação da taxa de ocorrência na população adulta portuguesa. Acta Médica Portuguesa. 16, pp. 309-320)

“Atualmente acredita-se existirem cerca de 140.000 veteranos com problemas psicológicos/psiquiátricos, sendo que 40.000 ex-combatentes possam ser portadores duma doença silenciosa chamada de Perturbação de Stress Pós-Traumático, também conhecida por ´trauma de guerra´. Estima-se que ainda estejam entre nós cerca de 300.000 veteranos da guerra colonial.” (Brandão, José, 2008. Cronologia da guerra colonial 1961-1974. Editora Prefácio)

As caraterísticas das operações militares e dos teatros de operações como Angola, Guiné, Iraque, Afeganistão, e mais recentemente da República Centro Africana como a dificuldade de circunscrever as linhas amigas/inimigas, guerra de guerrilha, o uso de engenhos explosivos improvisados, snipers, minas terrestres, a insegurança vivida, podem potenciar o impacto negativo da guerra sobre os militares[1].

Num estado de guerra, a quebra dos imperativos de lei resultam na banalização da violência dirigida ao outro e da morte, que afeta diretamente o limite das ações que sustentam ou destroem o laço entre os povos. Neste cenário tão adverso, a experiência traumática inunda o aparelho psíquico, num excesso pulsional inassimilável e deixa o sujeito submergido no trauma, na neurose, sem condições de simbolização, refém da repetição compulsiva do acontecimento danoso.

Nos teatros de guerra os veteranos habituaram-se a viver subjugados por mecanismos neurofisiológicos de sobrevivência adaptativa, que se localizam para lá do centro racional da mente. Através destes mecanismos, as “perceções de perigo” conduzem a “sentimentos de perigo e frustração”, que conduzem a “sentimentos de ira e agressividade” que se consumam em atos de violência que lhes permitiam viver num meio hostil, assumindo atitudes, posturas e sevícias com as quais muitas vezes não se identificam mais tarde.

 

Após uma guerra, para alguns militares voltar a casa pode ser a parte mais difícil…

É adaptativo ter fortes reações emocionais quando a nossa vida está ameaçada, mas estas reações devem diminuir ou desaparecer quando a ameaça já não está presente. Ora, isto não ocorre em pessoas com PSPT. Após o abandono da frente de combate, a habituação à violência afirma-se como mal adaptativa, da mesma forma que a hipervigilância, o medo das multidões e as perturbações do sono tornam-se disfuncionais no momento em que o veterano regressa a casa. As dificuldades do veterano resultam assim de um compromisso deslocado. Quando em casa, dependendo do processo de adaptação, fazem uma interpretação errónea e/ou descontextualizada das situações e reagem como se estivessem a viver um momento no passado, em guerra.

Falamos de Perturbação de Stress Pós-Traumático (PSPT) quando as consequências psicológicas de um evento traumático se prolongam no tempo, mais do que um mês, podendo no entanto haver um início retardado (dias, meses ou anos). Os veteranos com PSPT mantêm altos níveis de reexperiência com sonhos perturbadores, memórias perturbadoras ou pensamentos e imagens repetidas da experiência traumática, de evitamento de situações, pessoas, atividades ou evitar falar ou ter sentimentos relacionados ao trauma, cognições negativas com culpabilidade, vergonha ou humor deprimido, e de hiperativação com irritabilidade, comportamento imprudente ou destrutivo, perturbações do sono ou estar hipervigilante, sentir-se nervoso ou assustado. A PSPT pode ser vista como uma falha na adaptação.

Ian Long foi treinado para a violência e esteve em combate. Adaptou-se a uma nova realidade, mas não se readaptou. Como tantos outros jovens ex-combatentes da guerra colonial, após o regresso a casa ficaram entregues à sua sorte, tendo que aprender a conviver diariamente com os efeitos invisíveis da guerra. Foram vítimas da inoperância do sistema de saúde, da inexistência de técnicos qualificados ou centros de reabilitação capazes de receber os mutilados e traumatizados de guerra e de lhes dar reabilitação física e protésica adequada. Não existia qualquer programa de reabilitação e reinserção social e profissional, nem uma linha de apoio, nem tão pouco uma legislação em tempo útil que consagrasse direitos de apoio e subsistência a esses veteranos[2]. Fatores de risco acrescido para a manutenção da PSPT.

Após o 25 de abril de 1974, na euforia da democracia, a sociedade portuguesa esqueceu esforço e contributo dos seus veteranos de guerra para os desígnios nacionais, que durante quatorze longos e árduos anos de guerra somaram consequências inestimáveis. É fundamental aprender com os erros do passado e aprender bem a lição, ou estaremos condenados a repetir essa lição no futuro.

As consequências psíquicas dum trauma não são lineares e variam de vítima para vítima em função de variáveis não controláveis como as individuais e as conjunturais, nomeadamente, as caraterísticas da personalidade, a história psiquiátrica prévia, o tipo de trauma, intensidade e duração do evento traumático, entre outras. Contudo, outras variáveis podem ser controladas, antes, durante e depois do evento traumático, de modo a diminuir o seu impacto, nomeadamente através de políticas de proteção civil, formação dos órgãos de socorro e capacidade de resposta das estruturas de saúde, constituindo no seu conjunto, a primeira das estratégias de abordagem ao trauma, a prevenção.

Em ocupações de alto risco, para o qual a probabilidade de exposição ao trauma é alta (ex., agentes de autoridade, militares, bombeiros e técnicos de emergência médica), devem ser realizados esforços para aumentar a resiliência psicológica destes trabalhadores para evitar o efeito negativo do trauma psicológico, através de treino aproximado ao real, simulacros, formação sobre a PSPT e seus efeitos, primeiros socorros psicológicos, implementação de programa de pares, entre outros.

Portanto, a primeira intervenção ocorre antes do trauma e pertence a todos, de modo a que os recursos da comunidade estejam preparados e dotados de meios para dar resposta adequada a situações de potencial trauma mental, da mesma forma que já está preparada para dar resposta adequada ao trauma físico, pois em trauma psicológico: uma grama de prevenção equivale a um quilo de cura.

Ariel Milton, Psicólogo

@ariemilton.pt

 

[1] Nota: a guerra pode não levar necessariamente à psicopatologia e à PSPT. Em alguns casos a experiência traumática até pode ter um efeito regenerador, fomentando o crescimento pessoal, através do desenvolvimento de uma personalidade mais resistente e madura; desenvolvimento de uma maior compreensão da vida, e da natureza humana; desenvolvimento da autodisciplina e a uma maior valorização da vida.

[2] Só em 1999, vinte e quatro anos após o fim da guerra colonial, foi publicado o Decreto-Lei nº46/99, 16 de junho, “Apoio às vítimas de stress pós-traumático de guerra”, que veio clarificar e incluir a dimensão “perturbação psicológica crónica” resultante da exposição a fatores traumáticos de stress durante a vida militar. Finalmente, em 2000 é implementa a “Rede Nacional de Apoio” (Decreto-Lei nº50/00, 7 de abril) aos militares e ex-militares portugueses portadores de “perturbação psicológica crónica”.

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