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Compreender a Perturbação de Stress Pós-Traumático, a doença silenciosa.

Compreender a Perturbação de Stress Pós-Traumático, a doença silenciosa.

Ian Long, um jovem de 28 anos que serviu no Afeganistão, um ex “Marine” do exército dos EUA, foi o autor dos disparos que provocaram a morte a 12 pessoas na passada noite de quarta-feira (07nov) num bar no sul da Califórnia. Segundo fontes oficiais, o fuzileiro naval estava a agir de forma “um tanto irada e irracional”. Ian Long tinha uma dura mensagem na ponta da arma “Na guerra ensinam a matar, não ensinam é a continuar a viver!”

Muitos militares americanos que regressaram do Afeganistão foram diagnosticados com Perturbação de Stress Pós-Traumático (60.000), mas poucos procuram ajuda, por medo do estigma social, culpa ou vergonha. Regressam com vida, mas trazem morta a alma.

Por terras lusas, a nossa guerra do ultramar (1961 a 1974) nos teatros de operações da Índia, Angola, Guiné e Moçambique, envolveu cerca de um 800.000 militares (homens e mulheres) dos quais 10.000 foram mortos e cerca de 30.000 ficaram feridos. Atualmente acredita-se existirem cerca de 140.000 veteranos com problemas psicológicos/psiquiátricos, estimando-se que 40.000 ex-combatentes possam ser portadores de uma Perturbação de Stress Pós-Traumático (Albuquerque et al., 2003). Falamos de Perturbação de Stress Pós-Traumático (PSPT) quando as consequências psicológicas de um evento traumático se prolongam no tempo, mais do que um mês, podendo no entanto haver um início retardado (dias, meses ou anos).

Num estado de guerra, a quebra dos imperativos de lei resultam na banalização da violência dirigida ao outro e da morte, o que afeta diretamente o limite das ações que sustentam ou destroem o laço entre os povos. Neste cenário tão adverso, a experiência traumática inunda o aparelho psíquico, num excesso pulsional inassimilável, e deixa o sujeito submergido no trauma, na neurose, sem condições de simbolização, refém da repetição compulsiva do acontecimento danoso.

As características das operações militares e dos teatros de operações como Bósnia, Angola, Guiné, Iraque, Afeganistão, e mais recentemente a República Centro Africana como a dificuldade de circunscrever as linhas amigas/inimigas, guerra de guerrilha, o uso de explosivos improvisados, snipers, dispositivos e as minas terrestres, a insegurança vivida, podem potenciar o impacto negativo da guerra sobre os militares.

APÓS UMA GUERRA, PARA ALGUNS MILITARES VOLTAR A CASA PODE SER A PARTE MAIS DIFÍCIL…

É adaptativo ter fortes reações emocionais quando a nossa vida está ameaçada, mas estas reações devem diminuir ou desaparecer quando a ameaça já não está presente. Ora, isso não ocorre em pessoas com PSPT!
Nos teatros de guerra os veteranos habituaram-se a viver subjugados por mecanismos neurofisiológicos de sobrevivência adaptativa que se localizam para lá do centro racional da mente. Através destes mecanismos, as “perceções de perigo” conduzem a “sentimentos de perigo e frustração”, que conduzem a “sentimentos de ira e agressividade” que se consumam em atos de violência que lhes permitiam viver num meio hostil, assumindo atitudes, posturas e sevícias com as quais muitas vezes não se identificam mais tarde.

Após o abandono da frente de combate, a habituação à violência afirma-se como mal adaptativa, da mesma forma que a hipervigilância (fundamental para a proteção e sobrevivência), o medo das multidões e as perturbações do sono tornam-se disfuncionais no momento em que o veterano regressa a casa. As dificuldades do veterano resultam assim de um compromisso deslocado. Quando em casa, dependendo do processo de adaptação, fazem uma interpretação errónea/descontextualizada das situações e reagem como se estivessem a viver um momento no passado, em guerra.

Os veteranos com PSPT mantêm altos níveis de reexperiência (sintomas intrusivos associados com o trauma), evitamento a estímulos associados ao trauma, e hiperativação (alterações de excitação e reatividade associada com o trauma). Assim a PSPT pode ser vista como uma falha na adaptação.

A exposição ao combate também pode aumentar o risco de provocar comportamentos exteriorizados como o comportamento antissocial, a agressão, atividades ilegais ou detenções e condenações nos veteranos de guerra (e militares no ativo). Os militares não são mais violentos do que os civis sem PSPT.

Uma nota: a guerra pode não levar necessariamente à psicopatologia e à PSPT. Em alguns casos fomentou o crescimento pessoal nos veteranos através duma maior maturidade pessoal a partir do desenvolvimento de uma personalidade mais resistente e madura, maior compreensão da vida, e da natureza humana; da tomada de consciência das próprias capacidades e força pessoal; o desenvolvimento da autodisciplina e a uma maior valorização da vida.

O que fazer?
Ian Long foi treinado para a violência e esteve em combate. Adaptou-se a uma nova realidade. Este ex-militar representa um dos efeitos indiretos da guerra e da inadequada estratégia de preparação e apoio pós guerra.

As consequências psíquicas do trauma não são lineares e variam de vítima para vítima em função de variáveis não controláveis como as individuais e as conjunturais, nomeadamente, as características da personalidade, a história psiquiátrica prévia, o tipo de trauma, intensidade e duração do evento traumático, entre muitas outras.

Contudo, outras variáveis podem ser controladas, antes, durante e depois do evento traumático, de modo a diminuir o seu impacto, nomeadamente, desenvolver esforços para reduzir o risco e reforçar os fatores de proteção diante das experiências individuais de trauma, ou depois de um trauma e antes do início dos sintomas, de forma a prevenir o desenvolvimento da perturbação.
Portanto, a primeira intervenção ocorre antes do trauma, é de nível preventivo e pertence às organizações e comunidade. Diz respeito à PREVENÇÃO primária, secundária e terciária, de modo a que os recursos das organizações e comunidade estejam preparados e dotados de meios para dar resposta adequada a situações de potencial trauma mental, da mesma forma que já está preparada para dar resposta adequada ao trauma físico.

Em ocupações de alto risco, para o qual a probabilidade de exposição ao trauma é alta (por exemplo agentes de autoridade, militares, bombeiros e técnicos de emergência médica), devem ser realizados esforços para aumentar a resiliência psicológica destes trabalhadores para evitar o efeito negativo do trauma emocional com treino aproximado ao real, simulacros, formação sobre a PSPT e seus efeitos, primeiros socorros psicológicos, implementação de programa de pares, etc.

Cerca de 75 % dos afetados recuperam sem necessidade de intervenção especializada e apenas 25 % das vítimas de trauma (não só trauma militar) experienciam algum tipo de persistência de perturbação psicológica. Na maior parte dos casos clínicos a perturbação é transitória. Contudo, noutros, é necessário manter vigilância e avaliação clínica naquelas em risco de evolução para formas mais persistentes de sofrimento e disfunção, apesar das intervenções anteriores. Nos casos mais resistentes às intervenções anteriores, os Cuidados Especializados de Saúde Mental, devem ser constituídos com profissionais treinados no método específico de tratamento, que devem conduzir à seleção de psicoterapia ou farmacoterapia baseada em evidências.

Tratamento
A PSPT atinge o espírito, a alma, a mente, as emoções, as memórias e o corpo. A PSPT é também uma doença do corpo, uma doença somática, passível de ser tratada também a este nível, que sustentam a necessidade de intervenções farmacológicas e não-farmacológicas.

Há bons tratamentos disponíveis para PSPT. Os dois principais tipos são a medicação e psicoterapia.

Não existem psicofármacos específicos para o tratamento da PSPT, e o uso de fármacos numa fase inicial da doença até pode ser contrapruducente (caso das benzodiazepinas, sobretudo nas fases mais precoces), mas medicação com ação antiadrenérgica pode ser eficaz para combater alguns sintomas associados ao circuito noradrenérgico (sistema de alarme).

As guidelines recomendam por unanimidade a terapia cognitiva comportamental (TCC) para o tratamento da PSPT em primeira linha, especialmente a terapia de exposição prolongada e terapia de processamento cognitivo, que têm demonstrado serem eficazes tratamentos para PSPT. A TCC é uma psicoterapia focada e de duração relativamente curta para uma vasta série de problemas psicológicos, incluindo a depressão, a ansiedade, a ira, o conflito conjugal, os medos e a dependência/abuso de substâncias. O foco da terapia é no modo como pensamos (as nossas cognições), nos comportamos (as nossas ações) e comunicamos hoje, mais do que nas nossas experiências passadas. Por vezes psicoterapia e medicação complementam-se.

Ariel Milton

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