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Culpa de quem?!

Culpa de quem?!

Às vezes alguns pacientes culpabilizam-se por eventos traumáticos ocorridos. Seja por aquilo que acreditam que deviam ter feito, ou tinham que ter feito! Ou, talvez alguém lhes disse que tudo o que se passou foi culpa sua….

Por vezes os pacientes acham-se culpados por um determinado evento porque estavam a fazer algo impróprio no momento (por exemplo beber álcool e, em seguida, conduzir e ter um acidente em que o passageiro morre); ou, sentir-se culpado por ter sido o único sobrevivente; ou, sentir-se culpada por ter convidado para sair um agressor sexual; ou, sentir-se culpada pelas discussões e divórcio dos pais; ou, por não cumprir uma determinada tarefa (por exemplo acreditar que devia ter atacado o inimigo e que teria evitado a morte de um camarada amigo); ou, acreditarem que não cumpriram com o seu dever (por exemplo acreditar que deviam ter reparado num pequeno monte de lixo recente no caminho, que continha um engenho explosivo improvisado)…

As pessoas que experimentam um evento traumático, para além das emoções vividas no momento (emoções primárias e naturais como medo, surpresa), podem vir a sentir, após o evento, fortes emoções de vergonha, culpa e tristeza (emoções secundárias, ou sentimentos construídos). Portanto, experimentam emoções que surgem diretamente da experiência do trauma, mas também da interpretação que fazem do acontecimento traumático, e do seu papel.

Quanto às emoções primárias (naturais), estas dissipam-se rapidamente, a menos que haja algo a alimentá-las. É importante a pessoa sentir estas emoções sobre o evento, que na altura poderá não se ter permitido experimentá-las ou deixá-las correr o seu curso natural. O segundo tipo de emoções secundárias (sentimentos construídos) não resultam como resposta ao evento traumático, mas tem por base a forma como a pessoa interpreta o evento posteriormente.

O “caos” cognitivo pós-traumático é em si uma tentativa, mais ou menos adaptativa, de reorganização da estrutura cognitiva que ficou despedaçada no trauma. As crenças anteriores (ideias de mim, outros e mundo) ficam abaladas e desorganizam a pessoa, deixando-a por vezes num estado “procurar sofregamente algo…”, algo que existia e agora não. Se a pessoa tem pensamentos tais como “eu deveria ter salvo o outro” ou “devo ser um falhado pois não consigo superar isto”, então vai sentir “raiva” de si mesmo ou vergonha. Estas emoções e sentimentos não são baseados sobre os factos do evento, mas nas suas interpretações. Quanto mais pensar sobre o evento nestes termos, quanto mais destes sentimentos construídos vai ter.

A vantagem do facto da pessoa saber que está a produzir estes sentimentos é que se mudar os seus pensamentos e interpretações, vai conseguir mudar os seus sentimentos e reações. Uma breve analogia: pense nas suas emoções como um incêndio numa lareira. O fogo tem energia e calor para isso, assim como as suas emoções. No entanto, o fogo vai apagar-se se não é alimentado continuamente. Autoculpa ou pensamentos culpabilizadores podem continuar a alimentar o fogo emocional indefinidamente. Se tirar o combustível dos seus pensamentos, o fogo queima-se rapidamente.

O sentimento de culpa torna-se um ponto de bloqueio na recuperação da pessoa. Os psicólogos podem usar o diálogo socrático para ajudar os pacientes com estas crenças. Em alguns casos, ajudando os pacientes a compreender a probabilidade de resultados, independentemente do seu comportamento, pode ajudá-los com estes pontos de bloqueio. Em muitos casos, as ações dos pacientes tinham pouco ou nenhum impacto sobre os resultados. Os pacientes podem ser ajudados quando têm crenças irrealistas sobre as capacidades humanas. Por exemplo, em contexto militar, se a maioria das pessoas conseguem ver pequenas mudanças de cor numa estrada de terra quando se deslocam num veículo semi-fechado a 45 kms/h, e ainda tem de observar todo o ambiente em redor para detetar todos os tipos de ameaças? A aceitação das decisões tomadas no momento deve ser promovida. Os pacientes podem ser ajudados a fazer perguntas como: “Será que as pessoas boas tomam sempre decisões más?”; “Todas as más decisões resultam em maus resultados?”; e “Tomar boas decisões, por vezes, pode resultar em maus resultados?” O objetivo é ajudar os pacientes a aceitar que tomaram decisões e fizeram escolhas no momento em que, com o benefício da retrospectiva, parecem pouco apoiadas.
Mas eles não tinham como intenção aquele resultado (intencionalidade). E que essa escolha não os torna uma má pessoa. Uma meta importante no tratamento é ajudar os pacientes a aceitar plenamente as suas experiências daquele período/tempo e entender que essas experiências não têm que governar a sua vida.

Por vezes, o discurso em relação ao passado acarreta consigo terminologia que não ajuda a pessoa a recuperar a uma determinada normalidade desejada. É frequente ouvirmos no discurso dos pacientes palavras como “devia” ter feito isto ou aquilo, “devia” ter sido assim ou assado, ou “tinha” que ter percebido isto ou aquilo, ou “tinha” que ter feito doutro modo. São palavras (verbos transitivos) que obrigam a uma determinada ação. O não cumprimento do “dever” implica uma determinada “consequência”. Dever e ter são palavras determinantes do comportamento e a pessoa que acredita que não “fez aquilo que tinha que fazer” incorreu numa infração/erro, sentindo-se culpada pelo facto.

A culpa é uma resposta apropriada após a pessoa cometer uma atrocidade ou crime.”

Nota: Um paciente pode precisar de aceitar o que fez, estar arrependido e procurar o perdão de si mesmo ou, se for religioso, o perdão dentro da igreja ou outro local de adoração. A maioria das igrejas ou outros lugares de culto não conferem perdão ao impenitente. Se o autor não pediu perdão, não há necessidade de o paciente perdoar. Mesmo se o autor do evento traumático pediu perdão, o paciente não é obrigado a dá-lo! Entender por que alguém fez algo não é o mesmo que desculpá-lo. O paciente poderia encaminhar o autor para a igreja, ou outros locais de culto, para pedir perdão de Deus. O propósito do paciente que concede o perdão não deve ser para alguém fingir que tudo está bem, mas apenas para dar ao paciente alguma paz de espírito. Se o perdão for forçado por outros, isso só trará frustração e culpa.

Ora, como acima referido, a culpa pressupôe “dolo”, agir com intencionalidade. Na maioria dos nossos casos clínicos, os pacientes sentem-se culpabilizados (por eles ou sociedade) e usam de um discurso de culpabilização, confundindo a culpa com responsabilidade. A manutenção deste discurso faz com que a pessoa se mantenha agarrada ao passado, arrastando as emoções do evento idefinidamente.

Assumir a responsabilidade dos seus atos, implica o reconhecimento da sua ação, não intencional, com consequências desagradáveis, que em grande parte dos casos são imprevisíveis e incontroláveis!..

Após um trabalho cognitivo estruturado, o paciente é convidado a reexperenciar o passado e dirigir-se a este num discurso mais atualizado e mais construtivo, substituindo os verbos transitivos por condicionais “gostaria que tivesse sido diferente”, “gostaria de ter sido mais hábil na escolha que fiz”, “naquele momento decidi em condições difíceis e não poderia saber o resultado”.

A Terapia de Processamento Cognitivo (CPT) é uma forma estruturada de terapia que visa confrontar memórias traumáticas distorcidas, para modificar tais crenças e dissipar as emoções inadequadas. Tem uma duração média de doze sessões de uma hora cada e tem como objetivos: a) acilitar a expressão do afeto e adaptar de forma apropriada o acontecimento traumático aos “esquemas” sobre si mesmo e o mundo; b) reconhecer e modificar antigos pensamentos e sentimentos que não são úteis; c) aceitar a realidade do evento traumático; d) flexibilizar as crenças o suficientes para aceitar o evento traumático; e) sentir, genuinamente, emoções acerca do evento traumático. São usados vários materias de apoio e o paciente tem um papel preponderante e ativo na sua recuperação.

Ariel Milton

Psicólogo Especialista em Clínica e Saúde

CP15569

Facebook: https://www.facebook.com/arielmilton.pt/

 

 

 

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