Raio: Desligado
Raio:
km Até onde deseja procurar, à sua volta?
Pesquisar

Plano de intervenção reeducativa num caso de dislexia grave

RESUMO

Estudo de caso de um menino (8 anos), com diagnóstico de perturbação de aprendizagem específica-dislexia. Este estudo fala-nos dos benefícios do plano individual de aprendizagem para a sua problemática através 6 meses de trabalho, no Centro de Estudos e Psicoeducação MotivadaMente, através de uma intervenção psicológica e específica nas dificuldades de leitura, escrita e cálculo.

Palavras-chave: Perturbação de aprendizagem específica, dislexia, dificuldades na leitura, escrita e cálculo, intervenção psicológica e específica.

I- Pedido:

O acompanhamento, surgiu, a pedido da mãe porque o Duarte (nome fictício) manifestava muitas dificuldades na leitura e na escrita. Frequenta o 3º ano do 1º ciclo.

Segundo a progenitora, o menino tinha muitas dificuldades em permanecer calmo e atento em sala de aula. A auto-estima era muito baixa e o menino frustrava-se frequentemente em contexto escolar. A professora da escola já havia referenciado o menino para avaliação, com a equipa do agrupamento de escolas. O menino é acompanhado pela terapeuta da fala do agrupamento, por evidenciar dificuldades articulatórias e omissão de letras no discurso oral. É importante referir que, o Duarte tem um irmão mais velho (5º ano) que usufrui de apoio educativo especial, por diagnóstico de perturbação de aprendizagem específica- dislexia.

II- Avaliação:

A avaliação psicológica no Centro MotivadaMente surge com o objetivo de despistar, dificuldades efetivas da criança e em estabelecer, juntamente com os professores do Centro de Estudos um plano individual de aprendizagem específico para a sua problemática através de uma intervenção psicológica e específica nas dificuldades de leitura, escrita e cálculo

Assim, obtivemos um resultado na WISC (Escala de Inteligência de Wechsler) dentro da média para a sua faixa etária, com um melhor desempenho nas provas de realização que nas provas verbais.

Nas provas de ditado apuramos uma escrita “encavalitada” com troca/inversão/espelho e omissão de palavras, obtendo um resultado final muito abaixo da média para a sua faixa etária.

Nas provas de leitura apuramos que nas palavras monossilábicas e dissilábicas o menino lia com alguma dificuldade. Não efetuava a leitura em trissílabos e polissílabos. Tentava adivinhar as palavras pelo início. Era frequente efetuar o exercício por intuição sem tentar ler. Não conseguia soletrar corretamente nem fazer a junção das sílabas. Não sabia escrever convenientemente o abecedário. Frustrava-se facilmente pois era uma tarefa realmente difícil para ele.

Ao longo da avaliação verificamos uma atenção dispersa e dificuldades em focar-se. O menino parecia estar sempre em atividade. O foco de atenção ia oscilando não lhe permitindo uma boa assimilação em sala de aula. Todo o barulho ou movimento desconcentra-o.

O Duarte possui uma baixa autoestima e uma personalidade com muitos traços desafiantes com baixa tolerância à frustração. Decora as posições dos símbolos (esquema/desenho das letras e números) em vez dos significados/compreensão.

As dificuldades reais de aprendizagem de leitura e a consequente comparação aos outros colegas traduzia-se em ansiedade e baixa autoestima. Utilizava frequentemente frases como: “eu não consigo”, “não sei”, nunca vou conseguir”.

O menino sentia-se “inferior”. Era gozado pelos os colegas, quando tentava ler em sala de aula, o que se traduzia em comportamentos menos próprios, desafiadores, de agitação psicomotora. A encarregada de educação recebia frequentemente, recados referindo o mau comportamento na escola.

Revela também dificuldades nas bases da matemática. Precisava de reforçar a noção do número e o significado dos conhecimentos matemáticos que adquiriu. Sem utilizar um auxiliar visual, revela grande dificuldade em resolver problemas básicos. No cálculo, precisava de um trabalho alargado de treino mental e a sua respetiva organização.

III- Plano de trabalho MotivadaMente:

Iniciamos a nossa planificação de trabalho em setembro de 2016. Durante 4 horas semanais, começamos a trabalhar a junção de sílabas e a sua respetiva verbalização. Este treino era feito com coisas lúdicas como textos engraçados, criação de regras e questões nos jogos, elaboração de poemas para musicar em Rap. Em todas as tarefas utilizava-se um reforço motivacional positivo, criando-se uma certa competitividade saudável em ser o “melhor”, o “primeiro” a concluir a tarefa. Todas esta tarefas serviam como fator motivador/facilitador ao menino.

No português começamos pelas sílabas, seus sons e posterior junção na palavra. Para facilitar a leitura, seguíamos, com uma régua o texto. Tapávamos as sílabas até verbalizar a palavra. Só destapávamos por agrupamento de sílabas até que o menino conseguisse vocalizar toda a palavra. Se a vocalização estivesse errada era necessário que o adulto corrigisse, de modo a facilitar a assimilação e posterior aprendizagem.

Paralelamente a este trabalho com os professores, iniciou-se, com a psicóloga, um treino de competências específico para a autoestima, com técnicas de relaxamento e autocontrole. Utilizávamos muito o audiovisual com pequenos filmes onde o grupo deveria depois refletir sobre o tema. Era privilegiado o trabalho em grupo pois o reforço do grupo no menino, surtia um efeito mais efetivo que um reforço individual. Um dos objetivos principais era ajudar o menino na aquisição de gosto por aprender e pela escola. Ensinamos a gerir os conflitos com os colegas e em controlar a sua ansiedade.

A progenitora fazia com o menino, em casa, leitura de pequenos textos, o que ajudou muito na assimilação e sistematização da leitura.

Na matemática foi feito um reforço/revisão das bases da matemática e sua posterior consolidação.

IV -Conclusão:

Após seis meses de trabalho a pôr em pratica a nossa planificação verificamos que o menino aumentou a sua autoestima significativamente, o que se traduziu numa melhoria em termos do comportamento em sala de aula. As comunicações de mau comportamento reduziram-se e na avaliação do comportamento obteve mais avaliações positivas.

A leitura silábica melhorou significativamente o que faz com que consiga já ler e compreender pequenos textos. A sistematização na leitura ajudou-o a ter mais confiança nas suas capacidades de leitura e portanto, em sala de aula já faz questão de ler, sem vergonhas ou medos.

A equipa do MotivadaMente está bastante satisfeita com a evolução positiva do menino o que prova que com trabalho, paciência, amor e dedicação de todos os intervenientes na vida do Duarte, as dificuldades podem esbater-se e serem ultrapassadas.

 

Sobre Marcia Abreu Carrola

Mestre em psicologia clínica. Intervenção Precoce. Psicoterapia, avaliação psicológica de crianças e adolescentes, treino de competências pessoais e sociais, programas específicos para necessidades educativas especiais, gestão de conflitos, orientação vocacional e profissional, dinâmicas de grupo, técnicas de estudo e memorização.
Voltar para o Topo

Nota: Os artigos e notícias são da inteira responsabilidade dos parceiros que os escrevem e cuja identificação aparece junto aos mesmos. O Portal da Saúde Mental não interfere com as opções técnicas e científicas dos profissionais e instituições registadas no Portal.

Ao navegar neste site, concorda com a nossa política de cookies. saber mais

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

Close