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Sobre a Terapia Cognitivo-Comportamental

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), abordagem que utilizo em meus atendimentos clínicos, é pautada em uma premissa central: “Pensamentos automáticos negativos desencadeiam sentimentos desagradáveis que, por sua vez, favorecem comportamentos ineficientes e/ou autodestrutivos”.
De acordo com o modelo da TCC, existem três camadas de pensamentos: os pensamentos automáticos, as crenças condicionais e as crenças essenciais.

Os pensamentos automáticos encontram-se na camada mais superficial da consciência. Em função disso, são os mais fáceis de serem identificados, motivo pelo qual os terapeutas de abordagem cognitivo-comportamental começam o tratamento ensinando seu paciente a identificá-los e a analisá-los cuidadosa e objetivamente. Tais pensamentos tendem a ser negativos quando desencadeados por situações que carregam forte carga emocional. Exemplo disso são as situações em que sentimo-nos rejeitados ou diante de situações fracasso.
A título de ilustração, descreverei uma situação hipotética em que os pensamentos automáticos negativos foram acionados: “o caso de Adriana”.
O caso de Adriana
Adriana começou a sair com Gilberto, a quem conheceu em seu local de trabalho. Após alguns dias de êxtase,  Gilberto prometeu que telefonaria para Adriana na sexta-feira, mais precisamente às 17:30.
A hora combinada chegou e nada do telemóvel tocar.  Adriana pôs-se a esperar, enquanto vários pensamentos automáticos negativos começaram a ser acionados, em uma tentativa de explicar o motivo de Gilberto não ter telefonado: “eu sabia que isso nunca poderia resultar”; “ele já se fartou de mim”; “ninguém gosta de mim por muito tempo”, etc.
Tais pensamentos desencadearam em Adriana lampejos de vergonha, arrependimento, raiva etc. Depois de algum tempo a vivenciar tais sentimentos desagradáveis, a menina Adriana cedeu ao impulso de escrever uma mensagem de texto em que disse “poucas e boas” para Gilberto, expressando com uma aspereza que não lhe era habitual. Esse comportamento trouxe-lhe um alívio momentâneo, mas pouco tempo depois ela arrependeu-se, novos pensamentos automáticos e sentimentos desagradáveis foram desencadeados e o seu martírio mental continuou ainda mais forte.
É óbvio que Gilberto não foi capaz de cumprir a promessa feita à Adriana, o que sem dúvida deveria ser conversado e esclarecido com ele. O maior problema, contudo, foi a interpretação automática que Adriana fez da situação: um acontecimento ambíguo, no qual existiam muitos fatores desconhecidos, foi vislumbrado por através de lentes cognitivas negativas, o que gerou sentimentos desagradáveis que, por sua vez, desencadearam um confronto irado.
Um enfoque mais racional teria sido Adriana reconhecer a própria preocupação e até mesmo aborrecimento, mas também lembrar que existem várias razões para que alguém deixe de telefonar: emergências familiares ou profissionais, telefone descarregado etc. E, ainda que a causa do “não telefonema” tenha sido um esquecimento, ajudaria muito se Adriana compreendesse que. para além da falta de consideração e interesse, existem muitos outras razões que podem levar as pessoas a esquecerem de um compromisso.
Um psicólogo de abordagem cognitivo-comportamental teria ajudado Adriana a seguir os seguintes passos:  
Na segunda camada de pensamentos estão as crenças condicionais, que são constituídas por algumas das pressuposições e regras segundo as quais vivemos as nossas vidas. Aprendemos a seguir essas regras desde a infância, quando geralmente não eram ditas claramente, mas mesmo assim precisávamos lidar com elas. Por exemplo, talvez na casa dos vossos pais não existissem regras claras a respeito de onde e quando se podia discutir a sexualidade, ou talvez abordar esse assunto fosse implicitamente “proibido”. Algumas dessas regras podem ter funcionado naquela época, mas com frequência não se aplicam tão bem à idade adulta.
As crenças essenciais, que se encontram na terceira camada de pensamentos, são as mais rígidas e podem ser tão profundas que algumas pessoas nunca chegam a articulá-las nem sequer para si mesmas. Até que sejam identificadas e questionadas, seguem como verdades absolutas, influenciando as crenças condicionais que, por sua vez, influenciam os pensamentos automáticos.
Por exemplo, se uma das crenças essenciais de uma jovem profissional é respaldada na visão misógina de que: “ser mulher significa não ser competente o bastante”, provavelmente uma de suas crenças condicionais será: “precisarei trabalhar duas vezes mais que qualquer homem para ser igualmente competente”. Nesse contexto, nas ocasiões em que não corresponder às próprias expectativas, os pensamentos automáticos dessa jovem mulher lhe “confirmarão” que não é suficientemente competente. Considerando-se que é impossível para qualquer ser humano alcançar as próprias expectativas em 100% dos casos, ao longo dos anos essa crença levará a situações exaustivas, tanto do ponto de vista físico quanto do emocional.
Quando são disfuncionais, as crenças funcionam como lentes embaçadas, que distorcem a visão que temos sobre o mundo que nos cerca. Tais distorções criam visões que podem variar das mais otimistas e positivas às mais pessimistas e negativas. Entretanto, o ideal é que limpemos as lentes, de forma a nos aproximarmos tanto quanto possível da realidade.
O papel do psicólogo de abordagem cognitivo-comportamental é exatamente ajudar o paciente a “limpar as lentes”, de forma a permitir-lhe distanciar-se tanto do pessimismo que frustra e paralisa; quanto do otimismo ingênuo, que via de regra desaba após o primeiro vento, tal e qual os castelos construídos na areia. Alguns de meus pacientes, ao perceberem essa lógica aparentemente simples, passaram a aplicá-la e descreveram o processo com palavras como: libertador, iluminador, revelador etc. Isso porque identificaram diálogos interiores sobre os quais antes não estavam plenamente conscientes, descobrindo pensamentos automáticos negativos que uma vez trazidos ao consciente puderam ser desafiados e transformados. Depois de trabalharem os pensamentos automáticos, esses pacientes passaram ao passo seguinte da TCC, que consiste em identificar e ressignificar as crenças condicionais e as essenciais e, a partir disso, promover mudanças mais profundas na sua forma de encarar a vida.
No fluxo abaixo busco apresentar uma síntese da lógica que sustenta a TCC:
   Falamos constantemente conosco mesmos, tendo ou não plena consciência desse diálogo interior, que é baseado em pensamentos automáticos.
Quando são negativos, os pensamentos automáticos desencadeiam sentimentos desagradáveis (inquietação, tristeza,  ira, sensação de fracasso etc.).
Os nossos comportamentos, especialmente diante das situações mais estressantes, são influenciados pelos pensamentos automáticos.
Os pensamentos automáticos sustentam-se nas crenças condicionais, que são as “regras” segundo as quais conduzimos as nossas vidas.
As crenças condicionais, por sua vez, sustentam-se nas crenças essenciais, que são ainda mais rígidas,profundas e requerem mais tempo e trabalho terapêutico para serem acessadas.
Ao iniciar uma psicoterapia com um profissional de abordagem cognitivo-comportamental, a pessoa é convidada a explorar a sua vida para descobrir e desafiar as bases do seu diálogo interior negativo. Quando criança, não tinhas como avaliar a correção das vossas crenças enquanto elas se formavam. Uma das boas coisas de ser adulto é que agora tens a opção de se questionar e fazer escolhas mais objetivas e recompensadores sobre a forma como deseja viver.
Portanto, caso sinta-se desconfortável com algum aspecto da vossa vida, não perca mais tempo: tome a decisão de dar início ao processo de mudança hoje mesmo!
Doutora Ana Lúcia Pereira
Psicóloga Clínica e da Saúde

Sobre analuciapereira

Sou Ana Lúcia Pereira, psicóloga de abordagem cognitivo-comportamental, doutora em Psicologia da Educação. Tenho extensa experiência na realização de atendimentos clínicos nas modalidades presencial e online. Também atuo como professora universitária, ministrando aulas em cursos de licenciatura e pós-graduação.
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