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Trauma e Crescimento Pós-traumático

Trauma e Crescimento Pós-traumático

Percursos clínicos pós-trauma

A duração de uma reação de luto parece depender da forma, mais ou menos bem-sucedida, como a pessoa trabalha o luto. Nomeadamente, emancipando-se do laço afetivo à pessoa perdida, reajustando-se novamente ao mesmo ambiente que antes partilhavam, e através do estabelecimento de novas relações interpessoais afetivas. Um dos grandes obstáculos a este trabalho individual parece ser o facto de muitas pessoas enlutadas tentarem evitar a necessária expressão das suas emoções e sentimentos. Um tema central dos desafios de vida, incluindo o luto, é sua natureza sísmica (Tedeschi, 2011). Assim como as catástrofes naturais podem afetar o ambiente físico, os eventos que representam grandes crises de vida são aqueles que abalam, desafiam ou às vezes destroem a forma como a pessoa compreende o seu lugar no mundo. Quando este abalo dos fundamentos dos pressupostos individuais de mundo atingem um limiar suficientemente catastrófico, pode considerar-se que o indivíduo experimenta um evento traumático.

 

Cada indivíduo reage de forma diferente a eventos stressantes, com base nas suas características biológicas e psicológicas, na história social e sistemas de apoio, bem como na sua, uma combinação exata entre momento e circunstâncias contextuais dos eventos (Bowman, 1997; Julian et al., 2009). Portanto, eventos ou experiências traumáticas para uma pessoa podem não ser traumáticas para outra pessoa, ou podem não ser traumáticos para a mesma pessoa se o evento ou a experiência ocorrer numa forma, momento ou contexto diferente, anterior ou subsequentemente. Na consideração do percurso clínico pós-traumático não se pode esquecer a natural atenuação das alterações com o aumento da distância temporal ao evento traumático. Existe uma curva de ajustamento aos eventos traumáticos em função do tempo decorrido desde o evento que aponta para uma normalização a médio/longo prazo (Fig.1).

Figura 1 – curva de ajustamento a eventos traumáticos.

Contudo, é possível que ocorram flutuações neste processo de recuperação, nomeadamente, nas fases de lua-de-mel quando a vítima/enlutado recebe todo o amparo e apoio, e nas fases de desencanto e desamparo quando se avança para a sua autonomização.

 

 

 

 

O impacto dos stressores traumáticos incluem uma variedade de mudanças que ocorrem no trajeto de vida de uma pessoa com o passar do tempo (Fig. 2), incluindo também trajetórias positivas que foram descritas como “resistência” “resiliência”, “recuperação” e “crescimento pós-traumático” (Julian et al., 2009). Podemos distinguir os “resistentes” como aqueles que têm as reações menos debilitantes porque se alteram menos perante o evento traumático, sendo capazes de manter a integridade da sua vida mental após uma agressão psicológica. Podemos ainda distinguir os “resilientes” como aqueles que têm maior capacidade de adaptação e recuperação, isto é, a capacidade de restabelecer o seu equilíbrio após este ter sido rompido. Mas tanto uns como outros estão condicionados por fatores de risco ou fatores protetores. Portanto, nem sempre um trauma psicológico causa doença, e nem todas as vítimas de trauma necessitam de intervenção.

Trajetórias de adaptação

Figura 2 – Trajetórias de adaptação após eventos stressantes ou traumáticos da vida.

 

 

 

 

 

 

Trauma como elemento regenerador

A experiência traumática pode tornar-se num ponto de partida para uma reorganização de vida com reorientação de valores, opções e objetivos no sentido do crescimento e do amadurecimento pessoal. Existem duas noções aparentemente opostas sobre as ramificações do trauma. O primeiro, amplamente adotado, postula que o trauma tem um efeito patogénico. Os eventos traumáticos comprometem o equilíbrio físico e psicológico, dando origem a uma ampla gama de complicações de saúde física e mental. Um conjunto considerável de estudos empíricos dá suporte a esta visão, documentando o aumento das taxas de PSPT, depressão, ansiedade, somatização e alcoolismo (Kessler, Sonnega, Bromet, Hughes, & Nelson, 1995). Uma perspetiva alternativa propõe que o trauma tenha um efeito edificante. As pessoas podem desenvolver uma perspetiva positiva e experimentar mudanças psicológicas positivas na sequência de eventos traumáticos (Tedeschi & Calhoun, 2004).

Muitos sobreviventes de traumas descrevem a sensação de um crescimento psicológico, emocional ou espiritual como resultado de adversidades superadas como a guerra, violência familiar, abuso infantil e acidentes com risco de vida, desastres ou doenças. Os sobreviventes de trauma descreveram os seus sentimentos como se tivessem uma segunda oportunidade de vida e, como resultado, passaram a apreciar mais as oportunidades que têm nas suas vidas e relacionamentos. Experiências que antes pareciam banais, ou passavam despercebidas na pressa de cumprir prazos e seguir rotinas habituais, parecem ter um novo significado. O sobrevivente pode sentir-se capaz, ou até ser internamente compelido a “parar e cheirar as rosas” – isto é, prestar atenção e encontrar valor em todas as experiências. Alguns dizem que sentem um senso de clareza de visão e propósito, ou um novo conjunto de prioridades (Salter & Stallard, 2004). Em consonância com a psicologia positiva (Csikszentmihalyi & Seligman, 2000) os “sobreviventes” podem obter benefícios psicológicos, podendo resultar num crescimento positivo perante as dificuldades (Malhotra & Chebiyan, 2016).

O comum termo crescimento pós-traumático (PTG) sugerido e desenvolvido pelos autores Tedeschi e Calhoun (1995, 1996, 2004) significa que o indivíduo transformou-se em novas formas que vão para além do seu nível pré-traumático de funcionamento psicológico. Isto pode implicar um aumento de força pessoal, intimidade relacional, senso de espiritualidade, valorização da vida e possibilidades de vida. A conceitualização do PTG e a sua inclusão na intervenção psicológica baseiam-se em dois elementos: a crescente literatura sobre este fenómeno e as nossas experiências clínicas combinadas na prática de psicólogos clínicos (Tedeschi & Calhoun, 2013). A literatura empírica focada especificamente no PTG é bastante recente e ainda limitada em alguns aspetos. E, quando se baseia na experiência clínica, existe a possibilidade de um viés inadvertido. No entanto, como as nossas conceções de PTG têm dados para apoiá-los, este modo de pensar parece oferecer uma expansão útil da forma como as intervenções psicológicas são feitas em pessoas que lidam com o trauma e as suas consequências. Existem várias mudanças positivas que as pessoas experimentam na luta com stressores importantes refletidas no Inventário de Crescimento Pós-traumático (Tedeschi & Calhoun, 1996) como relacionamentos aprimorados, novas oportunidades de vida, uma maior apreciação pela vida, um maior senso de força pessoal, e desenvolvimento espiritual. Parece haver um paradoxo básico apreendido pelos sobreviventes de trauma que relatam estes aspetos do PTG, de que as suas perdas produziram ganhos.

Não menosprezando o impacto patogénico do trauma, recentemente um conjunto de estudos tem vindo a revelar, de forma consistente, o PTG relatado por sobreviventes após vários traumas físicos e psicológicos (Tedeschi & Calhoun, 2013). Como os resultados de trauma edificante e patogénico já foram documentados, uma questão imperativa é como eles se relacionam. Embora existam vários estudos sobre o tema, uma metanálise relatando 77 estudos (Helgeson, Reynolds, & Tomich, 2006), verificou que a relação entre PTG e distress ainda está mal definida. Um outro estudo longitudinal quis conhecer a interação entre PTG e PSPT examinando as suas direções bilaterais (Dekel, Solomon, & Ein-Dor, 2012) concluindo que o PTG é uma resposta ao distress e não o contrário, encontrando em indivíduos com PSPT níveis mais altos de PTG e mais vezes do que em indivíduos resilientes que não endossavam os sintomas de PSPT.

Ariel Milton

Psicólogo

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